Igreja Batista Regular do
Japiim, Manaus. 1/mai/16
O Senhor afirma de seu santo templo que
há uma “única esperança” (Ef 4.4), nenhuma outra mais.
Chego-me ao dicionário e leio: “esperança é uma crença emocional
na possibilidade de resultados positivos relacionados com eventos e
circunstâncias da vida pessoal”. Ou "não há esperança sem medo, nem medo
sem esperança". Pergunto: Esta é a definição de esperança? É como a
humanidade a entende?
Percebo sua completa insuficiência para
expressar o que o Senhor imprimiu na mente e no coração de seu povo, e mais...
está em desacordo com o que o Deus afirma.
Para que possamos esquadrinhá-la
fracassarei buscando-a apenas em meus sentidos. Sou advertido pela bondade de
Deus, pois, ao me regenerar e me fazer sua habitação, fez-me compreender que em
mim bem algum habita - percepções, instintos e intelecto falseiam em relatá-la.
Sabendo-me incapaz do amor, da
fidelidade, da bondade, da mansidão aceitáveis a Deus, minha incapacidade
pessoal avulta: Sem mim nada podeis, diz o Senhor. (Jo 15.15).
A esperança que deve vir a
todos nós nesta noite é ensinada por aquele que, manso e humilde
de coração, descansou minha alma. (Mt 11:29). Que
Ele nos ensine, esta é minha oração.
Começamos com as perguntas necessárias
na busca do verdadeiro significado da esperança - a única esperança.
O que é? Como tê-la? O que dela compreender?
Como posto anteriormente, não
a encontraremos na sabedoria terrena, tampouco nas respostas prontas, nos
poetas, ou sonhadores; a filosofia ou a religião não podem nos ajudar. A
Esperança que emerge das Escrituras está além dos muros da percepção natural.
Devemos iniciar indo ao Velho
Testamento, lá nossas mentes encontrarão as respostas que desejamos.
A ideia do termo, como os hebreus
a concebiam, era esticar-se em direção a algo. Segundo essa compreensão, a
esperança conduzia a pessoa a algo fora ou além dela. Assim, eles “viam” a
esperança em dois aspectos: Convicção e Motivação - longe de ser um sentimento
com base em uma possibilidade - como concebido pela mente humana.
A convicção soprava
(motivava) a ação em direção ao objeto. A certeza do fato futuro garantia e impelia
em direção da esperança.
Na mente dos hebreus a “esperança”
imbricada estava às promessas de Deus. A dependência do poder e da fidelidade
de Deus nutria aquele povo, sendo algo muito além do aspecto religioso, era uma
questão civil, nacional.
É necessário sabermos que um
ponto histórico foi determinante para o desenvolvimento da “consciência da
esperança” no seio da vida dos hebreus: a revelação de Deus a Abrão.
As promessas para Abraão
estavam voltadas para sua (1) longevidade e respeitabilidade, (2) sua descendência,
(3) e ser ele motivo da bondade de Deus sobre os demais povos. E a circuncisão
selou - e é o sinal - desta aliança.
Percebe-se que, mesmo dependendo
da ação divina, os hebreus enfatizavam sua concretização no âmbito do mundo natural.
Bastava-lhes a etnia para lhes serem garantidas as bênçãos de Deus.
Adicionou-se à aliança com
Abraão – já em seus descendentes - o parêntese da Lei. Nela, Deus formalizou critérios
inatingíveis para permanência dos hebreus na aliança com Deus. Contudo, a
própria Lei forneceu um sistema de sacrifícios garantindo assim, uma solução cruenta para suprir
a incapacidade do povo para submeter-se à Lei.
Sob a Lei, ao invés
reconhecimento da santidade de Deus e da pecaminosidade do povo, os hebreus a
adotaram - com uso dos sacrifícios - para banalizar o relacionamento com Deus. Assim,
a Lei e a circuncisão passou a ser o instrumento que garantia as promessas de Deus
- mecanizaram-se a convicção e a motivação relacionadas à esperança.
Com as circunstâncias
experimentadas, os hebreus foram premidos a desenvolveram cada vez mais a ideia
de esperança voltada para terra, livramento dos inimigos, colheita etc. Com as
questões relacionadas ao mundo futuro garantidas, a esperança passou a ser aqui
e agora.
A garantia da filiação de
Abrão – circuncisão - e os sacrifícios sedimentaram essa forma de perceber a
esperança. Assim, a esperança – engolida pela formalidade - passou a contemplar
eventos totalmente naturais. E essa ideia de esperança consolidou-se durante os
séculos. Mesmo que digam as Escrituras que Abraão em esperança creu contra a
“esperança”. (Rm 4.18)
Mas Deus - que é rico em misericórdia
e seu grande amor - permite-nos contemplar em meio a essa “esperança nacional”
uma luz que alumia em a “esperança”dos hebreus:
“Pois sei que meu Redentor vive,
e por fim se levantará sobre a terra e - depois de consumida minha carne - verei
a Deus em minha carne”. (Jó 19.25-26)
Há em Jó uma percepção de
futuro particular, sua esperança está entrelaçada a valores paralelos, remetendo-nos
para além dos muros da nação dos hebreus.
Identificam-se a presença, o
poder e a eternidade do Redentor, garantindo a Jó – em outra carne – a presença
do Senhor. Contempla além da terra, da colheita, dos inimigos. Incomum aos textos
do Velho Testamento, alarga nossas mentes e nossos corações com a profundidade,
altura, largura e comprimento que apenas a sabedoria de Deus nos permite.
Deus trazia em Jó a mesma esperança
impressa no coração de Abraão. Se Abraão esperou contra esperança, igualmente
Jó o faz.
Preserva a mesma ideia da convicção
sobre o futuro, contudo, o Redentor ganha uma dimensão impensável até então.
Transforma a figura do cordeiro refém de seu ofertante, colocando-se em Sua dependência.
O cenário traz o Redentor poderoso e eterno, e Jó se sabe além desta vida.
Tal esperança, a despeito de
sua grandiosidade e sempre despertada pelos profetas do Senhor, ocultou-se em
meio aos anseios nacionalistas e privilégios conquistados pela Lei e carne -
circuncisão - do povo. E lá esteve por milhares de anos.
Ao chegarmos ao Novo Testamento,
Simeão contempla Jesus e diz:
“Despede em paz teu servo, segundo
a tua palavra, pois meus olhos já viram tua salvação. Luz para as nações e
gloria para Israel”. (Lucas)
Simeão contemplava sua particular
esperança, resgatando Jó e seu Redentor. Retomada a luz do redenção, há uma
ruptura com a dimensão nacionalista da esperança. Não há circuncisão, Lei, terra
a ser conquistada, cordeiros a serem sacrificados. Aos pés do Redentor, que
vive, ele sabe que se levantará sobre a terra e Simeão verá a Deus... em outra
carne.
São lançadas sobre nós luzes
dos céus que nos revelam a esperança do Senhor. O que Deus revelara a Jó e a
Simeão: a certeza do futuro criado PARA e PELO Redentor.
E mais havia nas promessas
de Deus para Abraão: “em ti serem benditas todas as famílias da terra”. Sim, a
esperança de Jó e Simeão estava posta como luz para os gentios. Sim, Deus, trouxe sua esperança, iluminando-nos,
nós que vivíamos nas trevas.
É Deus quem nos diz quem éramos e o qual nossa
esperança: “Portanto, lembrai-vos que outrora vós,
gentios na carne... estáveis naquele tempo sem Cristo, separados da comunidade
de Israel, estranhos aos pactos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no
mundo. Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo
sangue de Cristo chegastes perto”. (Ef 2.11-13)
Há um contraste com o uso do
“outrora” e do “agora”. Percebe-se que “outrora” refere-se ao tempo em que
“estávamos sem esperança, sem Cristo, sem Deus, fora da aliança”. E depois
lemos o “agora”, referindo-se ao acesso às alianças, a Deus, a Cristo por meio
do sangue – do Redentor. Podemos dizer: Nosso Redentor vive.
Sim, a esperança nos foi adicionada
por Deus por meio do sangue de Cristo - Seu Cordeiro santo. Somos obrigados a
reconhecer que não tínhamos, tampouco sabíamos sobre sua existência, mas ela
nos foi concedida. Ela, não fazia parte de nós, de nossa natureza. Aquilo que
Jó contemplou, que Simeão contemplou, a esperança no Redentor - Cristo... Pelo
seu sangue, alinhamo-nos àqueles santos.
A esperança de Deus sendo
demasiadamente complexa e tão profunda não caberia no homem natural:
“Bendito seja o Deus e
Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos
regenerou para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus
Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável
e imarcescível, reservada nos céus para vós,”. (1 Pe 1.3-4)
Sim, Deus, em sua
misericórdia, nos gerou em nós mesmos, para assim imprimir em nossos corações esta
excepcional esperança. Alinhamo-nos não somente a Abraão, a Jó, a Simeão e
tantos outros, alinhamo-nos ao próprio Deus. Pois lemos: “pelas quais ele nos tem dado as suas preciosas
e grandíssimas promessas, para que por elas vos torneis participantes da
natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no
mundo”. (2 Pe
1:4)
E Pedro mais nos diz: “pelo
poder de Deus somos guardados, mediante a fé, para a salvação que está
preparada para se revelar no último tempo” (1 Pe 1:5)
O que se pode argumentar?
Deus em Sua grande misericórdia nos recriou, nos inseriu em sua própria natureza
para termos esperança e com Seu poder garantiu que nos conduzirá até Ele.
A convicção que Deus ensinou
aos hebreus está posta em nosso coração.
E... eu
sei em quem tenho crido e estou bem certo que ele é poderoso para me guardar
até aquele dia.
Sim, a convicção que Deus
ensinou aos hebreus está posta em meu coração.
A esperança sai das
Escrituras e nos diz (1 Jo 3.2-3): “Ainda não é manifesto o que havemos de ser,
seremos semelhantes a ele, como ele é, o veremos. E aquele que tem esta
esperança se purifica, assim como ele é puro!”.
Sim, serei semelhante a Ele.
Esta é a esperança, a única esperança.
Em outra carne, o verei como
ele é. E Deus me fornece a motivação de minha esperança: Purificar-me, como ele
é puro.
A esperança - convicção –
atua em nossos membros, constrangendo-nos – graças a Deus! – para caminharmos em
Sua direção. Sabendo que Ele é santo e na certeza de encontrá-Lo, eu me
purifico.
Esta é a esperança, não saiu
do nosso intelecto, dos sonhadores, veio do alto, do nosso Senhor. Deus a
implantou em nosso coração, quando nos falou: Filho, tu és meu.
Convicto, nosso Redentor
vive, e por fim se levantará sobre toda a terra e depois desta carne, seremos revestidos
de outra carne e estaremos para sempre com o Senhor... e o veremos assim como
Ele é.
Não há outra esperança.